15.1.08

Casal Carina S170 - fotos e história


A brochura publicitária da Casal Carina que constituiu 90% da minha informação durante muito tempo (scan da Horta); ampliação da tabela de características (ver mais características no manual do utilizador); foto existente numa oficina no Porto de uma adaptação não oficial para triciclo (existe a hipótese não confirmada que a Casal terá realmente produzido um triciclo Casal Carina, mas é pouco provável)


Publicidade da S170 (à esquerda cortesia António Valente, ao centro cortesia Hélder Pereira, todos via motorizadas50.com)


Foto de uma Carina "uniformizada" ao serviço da polícia (autor desconhecido; a mesma foto aparece num formato cortado no site da PSP); o Presidente Américo Tomás visita o stand da Casal na FIL de 1967, onde duas Carinas estão expostas (via motorizadas50.com)

No deserto de informação que é a história desta pequena scooter, eis que surge um oásis fresco e verdejante na forma de um pequeno livro: "A Metalurgia Casal, 1964-1974 - Elementos para uma cultura de empresa", de Manuel Ferreira Rodrigues, editado pela Câmara Municipal de Aveiro em 1996, 53 páginas. (este livrinho custou 3 euros e tal e adquiri-o na Livraria Municipal de Aveiro, www.bib-aveiro.rcts.pt/livraria.municipal/ [link não funciona], 234 406 483)

Nele o autor expõe com rigor a história completa da Metalurgia Casal, em paralelo com todas as circunstâncias económicas, políticas e sociais da época. Desenvolvimento de produtos, decisões estratégicas, intrigas comerciais, está tudo lá. A bibliografia é extensíssima, e inclui os arquivos da Casal e os arquivos pessoais do sr. João Casal. Entrevistas com o sr. João Casal e antigos responsáveis da empresa garantem a correcção e a profundidade da informação.

Um resumo das partes mais giras: a Metalurgia Casal é fundada em Dezembro de 1963. A empresa que lhe dá origem já importa motores Zundapp há algum tempo. O governo da altura, torcendo o nariz às importações, "convida" João Casal a fabricar motores em Portugal (sob licença alemã). E assim se faz em 64 com a assistência técnica da Zundapp, e para desagrado dos concorrentes Famel e semelhantes. O que acontece a seguir parece uma telenovela: a Casal quer produzir eventualmente a totalidade do motor, mas a Zundapp quer continuar a fornecer peças para contornar as restrições às importações. Quebram-se as relações e a Zundapp alia-se à Famel, apesar do desejo de nacionalização das autoridades responsável por esta mudança, enquanto a Casal passa a ser obrigada a fabricar motores completos, tendo agora como concorrência a Famel-Zundapp. O director técnico da Zundapp-Werke GmbH, Eng. Robert Erich Zipprich, manda os alemães às urtigas e vem trabalhar para Aveiro. Foram dois primeiros anos movimentados!

Em Junho de 66 inicia-se a produção do motor Casal, seguida alguns meses depois, pela Carina. As motorizadas apareceram apenas mais tarde porque a estratégia na altura era não fazer concorrência aos fabricantes de motorizadas que compravam os motores Casal. A firma vai crescendo e lançando novos produtos, e goza de sucesso no estrangeiro. Em 71, até se iniciam estudos sérios para a produção de um automóvel ligeiro nacional, mas o projecto não dá resultados. E é isto, o livro concentra-se nos primeiros 10 anos de actividade.

Só posso imaginar o que seria a Metalurgia Casal nos seus tempos áureos, com quase 900 trabalhadores, uma fundição, cantina, oficinas de maquinação e montagem, edifício da gerência, e escola de aprendizes. Praticamente todas as peças eram fabricadas nas instalações da Taboeira. Os pneus provavelmente seriam Mabor General de fabrico nacional. Os selins creio que seriam fabricados por uma empresa local. Muitas peças, incluindo peças de carroçaria, eram realizadas em alumínio injectado em vez de chapa, algo que provavelmente nenhum dos concorrentes se atrevia a fazer. A única foto de época que tenho das instalações é retirada do livro mencionado, e não se vê nada, apenas um tapete de ensaio- nota: tenho que fazer um para mim ihihihi (mais fotos na secção Casal de www.motorizadas50.com). Note-se que esta Carina de 66 das primeiras não tem protecção no guarda-lamas e parece estar pintada de branco.

A empresa fechou no fim da década de 90. Como sempre, apareceram alguns potenciais investidores mas a coisa nunca foi para a frente. Ouvi relatos que dizem que muitas peças sobresselentes estavam no chão, expostas aos elementos, e que muitas foram queimadas. Parte das instalações foi vendida e demolida, para se proceder à construção de grandes superfícies comerciais. A demolição foi feita sem preocupação em preservar a história e espólio da Metalurgia Casal, tendo sido destruídos arquivos, registos, e peças no mínimo interessantes.

O edifício principal e uma fila de armazéns ainda estão de pé. Os armazéns abandonados e as peças de plástico espalhadas pela erva alta têm uma qualidade fantasmagórica, e dão uma ideia da grandeza passada deste magnífico local. Ao lado encontra-se um concessionário da Suzuki. Creio que não se trata de coincidência já que o site http://www.veiculoscasal.pt/ se revela o site de um revendedor dessa marca.




Vista geral com concessionário Suzuki, edifício da gerência e fila de armazéns; Fila de armazéns; Local das instalações demolidas na actualidade

Nas minhas pesquisas em busca de mais informação, obtive algum (pouco) sucesso. Consegui achar os manuais de peças sobresselentes em baixo, infelizmente não para o motor M153 específico da Carina. Falei com um pica da época que me contou, com detalhes hilariantes e esbracejar de braços violento, como ele e os amigos iam pelos campos à noite, até ao terreno atrás da fábrica onde os cilindros com defeitos (alhetas partidas) eram amontoados para serem refundidos, tentando iludir os guardas; como passavam por baixo da rede e roubavam cilindros novos para poderem continuar os seus picanços. Falei com um velhote que tinha a Carina cinzenta da foto desde nova, com tudo de origem. Falei com outro que tinha mandado pintar a sua Carina na própria fábrica. Outro garageiro contou-me a história de uma pilha de tapetes de chão da Carina que ficaram a apodrecer no terreno da fábrica, para quem os quisesse levar. E recentemente foi vendida uma Carina zero quilómetros que estava esquecida num stand em Albergaria... Ainda tenho mais algumas pistas para seguir, e nunca se sabe quem pode ler isto na internet... The truth is out there...

Casal Carina S170 - lista de factos

Decidi transferir a secção dedicada à Casal Carina para aqui, não só para efeitos de backup, mas também pela facilidade de adição e revisão. A Horta continua dedicada à tarefa de centralizar toda a informação existente sobre a scooter Casal Carina S170, agora com a ajuda dum número crescente de entusiastas dedicados. Não é um trabalho fácil procurar aquilo que não existe, e ficarei eternamente grato a quem puder contribuir a este humilde esforço. Se você tem alguma informação sobre a Casal Carina, eu quero falar consigo!!

Possuo uma Carina de 1967, das primeiras, cujo único dono foi o meu avô. Nessa altura, a minha família morava (e em grande parte continua a morar) a alguns quilómetros da fábrica da Casal. Se considerar ainda que a Carina é a única scooter nacional, em regra geral ignorada e desconhecida, e para mais fabricada completamente em Portugal, tenho assim razões suficientes para me incumbir da hercúlea tarefa de preservar a memória desta máquina única para as gerações vindouras. O que, na prática, significa chatear velhotes na rua e fazer upload de meia dúzia de fotos. Aqui vai disto.


Eis uma lista de factos sobre a Casal Carina, de validade variável. Alguns são comprovados, outros são prováveis, outros são uma mistura de rumor/palpite/adivinhação.


  • A Casal Carina S170 é a única scooter nacional, e o primeiro veículo motorizado inteiramente fabricado em Portugal, cortesia da Metalurgia Casal S.A.R.L..

  • O motor da Carina entrou em produção em 26-10-1966.

  • A Carina entrou em produção em 18-11-1966.

  • Até ao fim desse ano, foram fabricadas 350 scooters.

  • Foram produzidas pelo menos 7000 Carinas. A minha de 1967 tem um número de quadro perto do 2000, e já vi uma de 1980 cujo número de quadro era perto do 7000.

  • A produção da Carina cessou em 198X (??).

  • A sua construção consiste num quadro tubular na metade dianteira do veículo, que sustenta uma forqueta mono-braço em muito semelhante à da Vespa, e um avental/chão numa peça única. O fim do quadro dá lugar a uma escora oscilante semelhante às das motas. Esta escora tem um motor Casal de aspecto típico fixo em posição central. A carroçaria traseira é constituída por duas grandes peças de alumínio injectado (direita e esquerda), que formam a cavidade do depósito ao serem juntadas. Na extremidade destas duas peças é aparafusada uma terceira, que constitui o "rabo" do veículo. Os dois balons laterais em chapa são planos. Muitas peças são de alumínio, como as jantes. Espero brevemente poder ilustrar esta descrição com umas fotos à maneira.

  • Talvez tenha existido uma Carina Sport de 100cc.

  • O motor a 2 tempos de 50cc é o modelo M153 (apenas montado na Carina?), um motor típico de motorizada com a adição de um carter molhado de corrente e de uma cobertura do cilindro para ventilação forçada.

  • A Carina é baseada fortemente na Zundapp R50/RS50, incluindo os motores "muito próximos" dos Zundapp. Basicamente o desenho foi copiado quando a Zundapp quebrou relações com a Casal e o seu director técnico veio trabalhar para Portugal.

  • A Casal Carina custava 9.990$00 quando saiu para o mercado.

  • Algumas mudanças ocorreram durante a produção. As primeiras forquetas não tinham amortecedor, que apareceu posteriormente. A articulação da forqueta também foi modificada para acomodar o amortecedor. Já vi forquetas com amortecedores de Vespa (como na foto): se realmente forem montagem original, é uma história interessante! Ouvi falar em mudanças nos carburadores, mas não posso confirmar.

  • Os balons esquerdos da primeira série não apresentavam ranhuras de ventilação à frente, que apareceram nas séries posteriores. Estranhamente, as imagens do manual do utilizador parecem mostrar balons sem nenhuma ranhura de ventilação. Série zero? (tentarei ilustrar brevemente)

  • As imagens do manual do utilizador também mostram apenas um amortecedor traseiro à esquerda. Não há amortecedor traseiro à direita (a minha tem), apesar de parecer existir o ponto de fixação no quadro. Outras particularidades parecem ser um filtro de ar "bexiga", e uma tampa da articulação de forqueta única. (de novo, tentarei ilustrar brevemente)

  • A cor de origem da primeira série era o branco (exclusivamente??). As séries posteriores aparecerem em cinzento metalizado e azul metalizado (confundido com verde em algumas fotos e ilustrações).

  • A primeira série apresentava um selim preto com o topo vermelho, e friso branco. As séries posteriores apresentavam um selim todo preto com friso preto. O friso de alumínio já não dava a volta toda ao selim (?), parando na traseira. A textura rectangular do estofo apresenta mais que uma variação.

  • Inicialmente, existiram dificuldades técnicas que obrigaram a interromper a produção e causaram "embaraços e... elevados prejuízos", nomeadamente a "entrada de poeira no volante magnético e filtro da Carina S 170".

  • O manual de utilizador, provavelmente referindo-se à primeira série como ilustrada, indica uma potência de 5.2 cavalos a 7000rpm. A minha brochura, onde já aparece uma Carina das séries posteriores, indica uma potência de 5.3 cavalos a 7500rpm. Poderá ter havido alguma alteração no motor, já que a velocidade máxima indicada passa de 60km/h para 80km/h, boa! A mistura indicada também passa de 1:25 para 1:30. A compressão mantém-se inalterada. O consumo indicado sobe dos 2.8l/100km para 3.5l/100km.

  • Também o volante magnético passa de "6V 18W" para "6V 25/4/5W". Outra mudança aqui? Provavelmente sim, já que a lâmpada do farol passa de 15/15W para 25/25W. A lâmpada do "farolim" passa de 24V/5W para 12V/4W. Antigamente pensava que realmente o sistema eléctrico possuía alimentações separadas a 6, 12 e 24 volt, mas deve ser tudo a 6 volt e mete-se a lâmpada que fizer a coisa funcionar. Faz menos "pouco sentido". O Coriscada informou que, segundo um filho de um trabalhador da Casal, "as lâmpadas do farolim são de 12V para não tirar intensidade ao farol".

  • A primeira série não trazia grade de bagagem nem protecção do guarda-lamas dianteiro. Estes acessórios já vinham incluídos em séries posteriores. Isso pode explicar a passagem do comprimento máximo indicado no manual de 1840mm para os 1900mm indicados na brochura. A largura diminui de 660mm para 610mm, não sei porquê. A altura do selim também desce 30mm mas uma delas é "aproximada".

  • O eixo da roda traseira, um veio de aço incorporado no próprio cubo de alumínio, tem tendência a partir.

  • As Carinas sobreviventes encontram-se predominantemente na região de Aveiro (local de fabrico) e na vizinha Águeda (capital nacional das 2 rodas).

  • Peças sobresselentes de motor ainda se encontram com facilidade, dada a parecença entre vários modelos de motor da marca e a sua difusão. Outras peças como borrachas, distintivos, faróis, interruptores, etc. só com muita dificuldade se encontrarão em estado novo.

  • Marca 120! :-)

Infelizmente, creio que esta página é a maior fonte de informação sobre a Casal Carina na internet. Não há muito mais para ver. No entanto, o site http://www.motorizadas50.com/ tem vária informação sobre a Casal e o modelo Carina, incluindo anúncios de jornal deste modelo e outras fotos e artigos publicados na época, bem como um resumo alargado do livro que mencionei. O site http://www.cybermotorcycle.com/ tem alguns posts sobre a Carina na secção da marca Casal. O blog http://www.rodasdeviriato.blogspot.com/ também já mencionou a Carina e merece umas visitas regulares (é actualizado diariamente!!!). Finalmente, o site http://www.scootermaniac.org/ menciona a existência de uma Carina Sport com 100cc, sem oferecer foto ou informação. Será que é verdade? Carina Sport de 100cc... O meu pote de ouro no fim do arco-íris...