24.3.07

6+2 Horas de Resistência Vespa

Nunca tendo assistido a uma prova de Resistência Vespa anteriormente, é com excitação e ansiedade que me levanto da cama e inicio o já familiar trajecto Porto-Leiria. É sempre a mesma coisa, 200 kms, 3 horas, um depósitozito. Ou será que não?

Ali ao pé de Cacia, quando a EN109 desemboca no IP5, as torres da linha de alta-tensão têm cada uma um ninho de cegonhas no topo. Pois as bichas andam todas atarefadas nas limpezas da Primavera e uma delas passa majestosamente à minha frente, carregando uma mão cheia de erva no bico. Um bico cheio de erva, portanto. Mais à frente, é um falcão que se cruza comigo, levando um ratito morto para servir de refeição. Ainda mais à frente, cruzo-me com outro animal típico do parque vespista nacional, infelizmente cada vez menos observável no seu habitat natural: a Vespa Coçada De Agricultor Idoso Com Atrelado E Pára-Brisas (nome científico Scooterium Ruralis Lusitaniae). Podem ver outro espécime aqui.

Chego a Leiria e tento ligar ao LTB para irmos todos para a almoçarada. Uma voz feminina repete mecanicamente que o utilizador não está disponível, eufemismo para inexistência de rede. Enquanto fumo uns cigarritos em compasso de espera, reflicto sobre o convite irrecusável que o LL me fez há 40 horas atrás e que fui obrigado a recusar, com imensa pena, devido a problemas incontornáveis de logística: um lugar numa equipa completamente chave-na-mão. A única coisa que eu tinha que fazer era aparecer e pilotar a Sprint 166 preto-fosco. Atiro a beata ao chão com violência. "Raios!... Bem, para o ano há mais...".

Comunicação conseguida com o LTB, sou redireccionado directamente para o kartódromo onde a prova já decorre com máxima intensidade e onde o catering Maia acalma o meu estômago esfomeado. Logo à chegada, o CDI da minha PX é usado para diagnosticar a Vespa da equipa do Jony, que estava comatosa. Não era do CDI, provavelmente seria do prato que no entanto já tinha sido substituído e, mesmo assim, não funcionava. Mais tarde, a Vespa conseguiu regressar à pista, se bem que com performances modestas.

Toca a subir e descer as boxes a cumprimentar a malta. Ena, tantos Bitubos. As paragens nas boxes para troca de piloto ou reparações mecânicas imprevistas de maior ou menor dificuldade sucedem-se com refrescante regularidade, o que combinado com a acção na pista fornece motivos de constante interesse e emoção a todos os espectadores. Siga a tirar fotos, é o que eu faço, raio de máquina estás mesmo a dar as últimas.

A pista parece divertida de fazer numa Vespa normal, quanto mais num dos maquinões super-preparados com elevado potencial de encorrilhamento de asfalto que por lá andam. Rapidamente ganho o hábito de tapar os ouvidos sempre que vejo a 50s cinzenta, aquilo parece o Concorde a passar na recta e não me refiro ao aspecto nem à velocidade. Também ganho o hábito de olhar com atenção antes de me mexer pelas boxes, os pilotos estão sempre a passar e não creio que haja limite de velocidade. Alguns espectadores não concordam comigo e deambulam distraídos indiferentes ao perigo. Talvez seja esta a única falha grande da organização.

Olho com atenção para as várias Vespas e divirto-me a observar os pormenores e as várias filosofias de preparação, e estilos de condução. Olho com redobrada atenção sempre que passa a Sprint preto-fosco do Lazy Team, com uma elegância insuperada por qualquer outra. Até o barulho do escape era contidamente poderoso, sem necessitar de berrar aos 4 ventos para anunciar com firmeza e confiança a sua passagem. Não posso evitar, sou um gajo de Sprints.

O dia progride impulsionado à força de rotações dos pequenos motores italianos e até o Sol é obrigado a baixar e a desaparecer. Com as luzes do kartódromo ligadas, já se começa a olhar para o relógio e para o écran das classificações com maior frequência e preocupação. Jogam-se os últimos cartuchos, dá-se tudo por tudo. É agora ou nunca, só temos que temer o próprio medo. 10 minutos antes do fim, o Faveca sai bastante largo na entrada da recta. Já outros tinham feito o mesmo com efeitos interessantes nos espectadores, mas conseguiram recuperar logo e voltar ao preto. O Faveca vai lançado pela berma com a traseira a rabiar e creio que roçou em todas as pilhas de pneus ao longo de 20 metros, flirtando descaradamente com o desastre. Aos pinchos, recupera habilmente o controlo e segue como se não se tivesse passado nada. Mãezinha. Foi o meu momento do dia.

Acabam as 8 horas, ganha um dos foguetes de Cabeço Verde, siga a arrumar. As massas de ferramentas, peças, capacetes e fornecimentos variados que se encontravam espalhadas descuidadamente no chão desde manhã desaparecem num piscar de olhos, sugadas por uma procissão de carrinhas que se dirige qual seta certeira para o jantar em Leiria. Vazio e silencioso, o kartódromo parece ainda ressoar com o barulho dos escapes sobre-aquecidos, debaixo de um fino véu de fumo azulado que se dissipa lentamente sob a luz amarela dos holofotes. Apenas algumas anilhas, bocados de cabos e uma ou outra mancha de óleo provam a existência da corrida. Já acabou.

Morfagem industrial, noitada no bar sob o alto patrocínio sonoro do Professor X, abancamento cortesia de Kat e LTB, decisão do núcleo old-school de promover o Tunes de newbie a membro do núcleo old-school (passando o Jony a ser a nova bitch), alvorada tardia conjugada com mudança da hora proporcionando almoço às 4 da tarde, expedição de recolha de peças com o Bibi, mini-passeio com o Marrazes e o Renato, siga para o Porto antes que fique muito escuro. Minhas fotos aqui. "Só pode ter sido do óleo, trocámos tudo do retentor para fora!"

(um agradecimento especial à Kait e ao Little Poser Boy pelo empréstimo do sofá e pela hospitalidade, e ao LL pelo convite extremo)