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24.12.10

Vespa de corrida regressa a casa passadas duas décadas

Lembram-se desta foto?

Sintra Air Force Base - Vespa racing in the mid 1980s
Foto de Ciclo-Foz

Quando eu entrei na loja e vi aquela pilha de fotos de corridas e passeios antigos em cima do balcão, não fazia ideia da série de acontecimentos improváveis que se iria desenrolar. O Alfredo tinha sacado as fotos antigas e eu embarquei de bom grado no expresso das recordações que foi directo aos anos 80. Uma das imagens que me capturou a atenção foi a de cima e, depois de ouvir algumas histórias das corridas de velocidade que se faziam no final da década de 1980, saiu a pergunta natural: "E esta PX, por onde é que anda agora?"

Paradeiro desconhecido.

Alguns dias depois meti a foto na Horta e o Alfredo reparou na matrícula, que lhe pareceu invulgarmente familiar. Essa sensação estranha impeliu-o a deslocar-se à garagem onde, entre os vários motociclos usados para venda normais num estabelecimento do género, se encontrava uma PX preta, vulgar e banal. Para sua surpresa, a matrícula era igual! Uma espreitadela ao livrete foi ainda mais esclarecedora: a cor do veículo estava registada como vermelha! A Vespa com que o Alfredo tinha corrido há mais de 20 anos atrás tinha regressado sozinha a casa e estava mesmo ali sem que ninguém se tivesse apercebido! Quais são as probabilidades?...

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Foto tremida (duh) mas a matrícula é a mesma

Esta história fantástica oferece ainda um ponto de exclamação final já que a PX em questão, que se encontrava à venda ao público em geral, quase encontrou um dono novo na semana anterior à descoberta da sua verdadeira identidade. Pelo capricho do destino regressou a casa depois de todo este tempo e, obviamente, já não se encontra à venda sendo antes exercitada regularmente nas ruas da Invicta. Fico contente por saber que a Horta desempenhou um papel, mesmo que pequeno, nesta rara reunião.
 

4.6.10

Vespa de desempanagem móvel do ACP número 326

A Horta decidiu fazer algo vagamente jornalístico, para variar, e foi à caça da esquiva Vespa do ACP. Apesar de eu fazer poucos quilómetros de enlatado, o Automóvel Clube de Portugal já me salvou o dia de modo eficiente em duas ocasiões separadas, e considero-os como uma organização meritória e inteligente ao ponto de terem na sua frota do Norte, em tempos, três Vespas utilizadas como viaturas rápidas de desempanagem móvel.



Destas três duas já foram desactivadas e vendidas, restando agora apenas uma dedicada a fazer recados, a número 326. É uma PX do início dos anos 90, creio eu, sem arranque eléctrico e em estado bastante razoável e original, se bem que algo coçada do trabalho. Marca menos de 40.000kms no mostrador e as suas marcas identificativas dianteiras encontram-se tapadas pelo avental.





Esta PX tem de momento uma "top case" Givi atrás mas nos seus dias de trabalho possuía ainda uma caixota à frente com os dizeres "desempanagem móvel" para levar a ferramenta toda. Além disso havia uma bateria grande entre os pés do condutor, uma instalação de rádio no porta-luvas, uma antena na traseira e um extintor ao alto por trás do pé esquerdo do condutor, como demonstra o sr. Domingos neste pormenor da foto de grupo.



Uma etiqueta no topo do porta-luvas continua a lembrar o indicativo de rádio deste veículo - "Autoclub 326" - e uma fixação para o microfone continua rebitada no seu interior, como memórias esbatidas de meios de comunicação obsoletos. No chão, dois furos adjacentes tapados com parafusos marcam o local do extintor desaparecido.



A manutenção desta viajante vermelha continua a ser realizada pelo sr. Domingos na garagem do ACP. Nunca deu grandes problemas: alguns cabos, mudanças de óleo e uma ou outra embraiagem porque "andavam muito carregadas". Um dia houve também um tombito, causado pela chuva miudinha que cortava a visibilidade através do pára-brisas e por uma sucessão inesperada de covas. Esse tombo levou à descoberta dos ratos da Cantareira de rabo cortado que assim o é porque os inteligentes roedores o usam para pescar peixe no rio! Não se ouvem histórias destas ao rolar num secador aisático...

O veículo 326 deu o seu lugar na linha da frente a máquinas mais modernas como Hyosungs automáticas e BMWs GS, mas continua a afirmar "presente!" sempre que é preciso ir fazer um recado. Aparentemente também havia Pêxizers a desenrascar enlatados nas zonas de Lisboa e Coimbra mas não tenho informação dessas. De uma, pelo menos, fica registada a história.

Os meus agradecimentos à menina Dulce Pinto do ACP que possibilitou a minha visita, e ao sr. Domingos que me contou a história desta Vespa. Mais fotos de qualidade marginal porque estava pouca luz no armazém e é essa a minha desculpa em magnífico slideshow aqui.

15.3.09

Porque caem os aviões

Os aviões são desenhados, construídos, pilotados e mantidos de maneira a que seja praticamente impossível a um único erro ou avaria colocar em perigo a segurança do vôo. Existe uma série de linhas de defesa que protege o avião, como folhas à volta duma couve. E a coisa até funciona bastante bem.

Num assunto não relacionado, hoje de manhã saí para passear e até apanhei aquele semáforo à saída de casa que está sempre vermelho em verde. "Bom presságio", pensei eu. Bem, mais ou menos. Para os lados de Espinho, numa estrada estilo via-rápida, furou a traseira. Aquilo abanou um bocado, como sempre, mas parei sem problema. "Já tive a minha emoção para este fim de semana", certo? Errado.

Primeira linha de defesa contra um furo: o pneu sobresselente. Pois foi mesmo este que furou, já que o pneu "oficial" anda furado há um mês e eu tenho tido preguiça de lhe trocar a câmara. Lá se foi a primeira linha...

Segunda linha de defesa contra um furo: câmara de ar sobresselente. Vocês não pensaram que eu andava à selvagem, sem pneu para trocar, pois não? Aquando do último furo comprei logo uma câmara que foi atirada para o porta-luvas, onde já lá estava a minha velha bomba de ar. Juntos estes dois elementos faziam a vez do pneu suplente, com a única desvantagem de adicionarem alguns minutos à reparação. Pego na câmara de ar, tiro-a da embalagem, e olho para a válvula em todo o seu esplendor erecto e linear. Não acredito nisto, deram-me uma câmara com a válvula direita na loja! Lá se foi a segunda linha...

Terceira linha de defesa contra um furo: a assistência em viagem. Raras vezes utilizei a assistência em viagem, mas considero-a uma ferramenta imprescindível. É a última e a mais segura de todas as linhas de defesa, a salvação quando tudo falha. "Fáxabôr, quero assistência", "sim senhor qual é a matrícula?, e onde é que o senhor está?, e qual o seu contacto? Ok, então é um transporte para a oficina", "não não, é para a residência", "a sua assistência em viagem só cobre o transporte do veículo para a oficina mais próxima, e não os ocupantes", "EIN? Hoje é Domingo, as oficinas estão fechadas! E eu, vou a pé? Esqueça." Eu tinha uma assistência em viagem mega-xunga e nem o sabia. Lá se foi a terceira linha de defesa...

Para que haja um acidente de avião, uma cadeia de pequenas falhas deve suceder-se numa sequência bizarra, contornando as várias linhas de defesa uma a uma. É como os buracos num queijo Suíço alinharem de tal maneira que se consegue ver através do queijo. Qualquer uma destas linhas de defesa tem a possibilidade de quebrar a cadeia de falhas mas, contra todas as probabilidades, tal não acontece. O resultado é aviões amassados e o Bob encalhado numa via rápida.

Agora que o mal estava feito, comecei a pensar na aterragem de emergência. Como sair dali? Lembrei-me dum velho truque utilizado por um amigo durante o Período Mesozóico do BTT nacional: enrolar fita adesiva de caixote à volta da câmara de ar. A minha saca das ferramentas tinha um rolo de fita eléctrica verde e foi mesmo isso que fiz - não se riam! - , enrolar fita adesiva à volta do furo. E funcionou! A câmara aguentou pressão (bendita bomba de bicicleta com 25 anos de idade) e o Bob saiu dali para fora!

Durante 10 minutos, pelo menos, até aquilo dar o berro por completo. Suponho que o furo da câmara deve ter evoluído catastroficamente para um rasgão, mas não antes de eu ter saído da via rápida e ter conseguido chegar a um posto de abastecimento onde pude observar a equipa do F. C. Porto a ir dar um passeio matinal. Finalmente sem opções, fiz algo que nunca sequer contemplei, em 11 anos de scooterismo clássico extremo: liguei à minha mãe e pedi-lhe para me vir buscar. Espero que a PX ainda lá esteja amanhã...

19.1.09

A Lambretta dos 10 contos

Costumo ser bastante reservado acerca da minha humilde colecção de scooters, que mantenho afastada dos olhares do grande público. Comprei-as quando eram baratas e abundantes mas essa é uma época completamente esquecida; os preços altos são uma constante na actualidade, o que faria incidir uma luz bastante estranha no meu estábulo se este fosse apresentado publicamente. Além disso, o véu de mistério propositado fará a minha colecção parecer maior do que é. :-)

Abro esta excepção para vos tentar educar um pouco na história do scooterismo nacional, criar algum contexto histórico na evolução do coleccionismo de scooters clássicas, e proporcionar uma âncora de sanidade nestes mares tempestuosos de preços loucos. Esta é a minha Lambretta LI150 série 3 que comprei por 10 contos, com documentos, para oferecer a um amigo como prenda de aniversário. Passado algum tempo ele deu-ma de volta, o que dá uma média de 5 contos por cada entrada de LI150s3 na minha frota, eheheh.


Sim, é verdade. Há não muitos anos atrás as scooters eram baratas. Para os novatos pode ser difícil de acreditar, habituados como estão a um preço mínimo de 1000 euros por qualquer monte de lixo minimamente semelhante a uma Sprint. Antigamente eu podia sair de casa ao Sábado de manhã com 40 contos no bolso, andar 30 quilómetros em qualquer direcção, e vir almoçar a casa com uma Sprint a andar. Os preços não estão loucos agora, estão é parvos! Antigamente é que os preços eram loucos.

Num destes passeios de Sábado de manhã fui dar a um garageiro daqueles com o chão em terra batida e o calendário da mulher nua na parede. Na sua arrecadação tinha lá isto parado. Falei com o dono: "quer vender? isto está aqui parado a apodrecer, pode ser quanto é que você quer dar, olhe que tal 10 contos, pode ser leve lá isso." Surreal, não é? Durante vários anos tive uma regra de não comprar scooter nenhuma que custasse mais de 50 contos, e enchi a garagem. O que é que se compra hoje com 50 contos? É claro que estes preços nunca se poderiam manter num mercado justo e livre, mas daí até à especulação descarada que começa a aparecer é um longo caminho.

Esta LI não tem os balons: estavam no pintor a ser refrescados quando, infelizmente, o homem morreu e se perderam. Em compensação veio com uma tampa de guiador e conta-kms suplente. Depois dumas horas à volta dela, até chegou a pegar e tudo. E depois duma limpeza, até deixou de meter nojo. Mais ou menos. Ei, é uma Lambretta de 10 contos!...

Por isso, enquanto vocês analisam os classificados à procura de algo minimamente decente por menos de 2000 euros, lembrem-se que eu:

a) comprei uma Lambretta por 10 contos,
b) dei uma Lambretta a um amigo;
c) recebi uma Lambretta de graça.

E é por isso que eu sou o Bob.

25.10.07

"48 anos jovem e ainda está p'rás curvas"

Aqui está um relato inspirador e cheio de boas vibrações, retirado do vespa.org.uk, e que reproduzo já traduzido para vosso deleite literário:

Esta 152 L2 [modelo específico Inglês de fabrico nacional] de 1959 ainda é propriedade e é operada pelo seu dono original, John Lees de Cheltenham, e ainda é usada com frequência para pequenas voltas no seu território habitual. Este ano verá o seu 48º aniversário, e a sua invulgarmente baixa quilometragem (55000 quilómetros) deve-se a anos de inactividade no passado e à auto-confessada falta de apreciação do John duma máquina que ele agora começou a perceber que é tanto maravilhosa como histórica. Está agora a ser usada mais regularmente do que sempre e a ser extremamente bem tratada.

A pintura cinzento-cogumelo é a original com apenas arranhões menores e um leve vinco no avental causado por uma discussão com uma sebe. Depois de ter perdido força, o motor sofreu uma revisão grande há uns cinco anos atrás, mas antes disso o cilindro nunca havia sido desmontado. De facto, a culaça tinha sido desmontada apenas duas vezes para uma descarbonização rápida. A primeira desmontagem foi há uns 43 anos atrás quando a máquina estava a perder força, soando rouca, e não aguentava a mudança maior.

Alguém que 'conhecia' de motores deu uma vista de olhos e, quando ele nem conseguiu meter uma agulha de tricotar pelo escape acima, sugeriu que uma descarbonização poderia ser uma boa ideia (Oh, a feliz ignorância da juventude!). Lá saiu a culaça e o escape recebeu um banho de soda cáustica. Os resultados foram maravilhosos e a força total foi recuperada.

A segunda desmontagem da culaça foi há uns 38 anos atrás e, devido à baixa quilometragem, nunca mais saiu até à recente revisão grande. O escape original durou 20 anos mas foi então substituído. Senso comum implicou que se serrassem várias polegadas da nova ponteira de escape para facilitar a remoção da roda traseira (contra bons conselhos), tudo sem aparente efeito negativo. O segundo escape é o que está em uso hoje em dia. Pneus novos foram instalados, claro, bem como uma roda suplente. O selim foi soldado e re-estofado. A embraiagem foi substituída na revisão grande, apesar de a original estar a funcionar bem. Os calços de travão dianteiros são novos mas os traseiros, incrivelmente, são os originais. Os sinoblocos que seguram o amortecedor traseiro no lugar foram renovados há uns 30 anos atrás, bem como o amortecedor dianteiro. Mudanças no código da estrada viram a adição de uma luz de stop traseira, mas todas as outras lâmpadas são as originais [ :-o ].

Todos os cabos (à parte o cabo da embraiagem) são os originais, e aqui reside uma história - o primeiro cabo de embraiagem partiu quando a máquina tinha apenas 2 anos de idade, e o segundo cedeu em 1989. E onde é que cedeu? A uma centena de metros de um entusiasta local da Vespa que tinha um stock enorme de peças suplentes. Dentro de meia hora estava de volta à estrada.

Os platinados mantiveram-se intocados durante 25 anos e foi apenas um problema difícil de pegar-a-quente que levou à sua descoberta e substituição. Isso na realidade não curou o problema, mas um novo fole de ar e uma vela diferente fizeram-no. Aqueles platinados poderiam ter durado para sempre!

A manutenção consistiu em contar o número de rodas e dar pontapés nos pneus, e na borradela ocasional de óleo e massa. O mais longe que esta Vespa já esteve de Cheltenham foi Abergavenny (uns 100 quilómetros) e o lugar que já visitou mais vezes foi a 'Severn Bore tidal wave' ao pé de Gloucester. A situação mais próxima do desastre foi um par de milhas de chiadeira horrorosa numa ocasião em que não foi misturado óleo com a gasolina (está tudo bem leitores, já podem abrir os olhos agora - Ed). A compreensão súbita da causa levou à adição do óleo e, de novo, sem aparente efeito negativo. "Whiskers" [?] pararam a máquina duas vezes, ficou sem gasolina duas vezes, e teve três furos. Bateu num pássaro (que recuperou) e assustou de morte o pêlo duma ovelha na Floresta Dean. Um pára-brisas e uns piscas foram modas - todos removidos há décadas atrás para se recuperar a aparência original.

"Isso lembra-me," diz John, "o óleo da caixa bem pode ser o original. Tenho que o mudar um dia destes!"